Wednesday, June 11, 2008

A pedido de muitas famílias....

...Novo espaço disponível.

Apenas para leitores qualificados:


Red Coast



Obrigado por esperarem e desculpem pela demora.

Saturday, April 05, 2008

Guide to a Moving Target

A antologia de 5 textos "Guide to a Moving Target" encerrará este blog.

A todos os que leram e comentaram aqui, um obrigado.

Será colocado em breve um link para o meu novo espaço.


Hasta...

5. Ghost Canyon

Version 1.5.

"Guide to a moving target"

Start... Now:

Já não vejo qualquer coisa de novo aqui já faz tempo...
Mas entretenho os dias com os rearranjos fúteis na ordem temporo-espacial das coisas procurando uma nova ordem aqui que me satisfaça...
Digo que cada coisa que possuo é feita de memórias, mas o que é certo é que tudo me pesa demais, e na realidade desfazia-me de grande parte delas sem olhar para trás.
As coisas mais importantes estão a um canto seladas, e o resto parece uma paródia inocente a um tempo que já passou.
Digo que estou bem aqui, porque conheço os cantos de memória, porque digo que me excito com o desfile interminável das coisas que aqui fiz...
Mas já não tenho espaço para coisas novas... e agora que faço?
Queria uma máquina de café, e mais do que um parapeito...
Queria começar uma garrafeira de brancos e outra de tintos e sem comprar nenhuma!
Tudo isto porque redescobri o prazer de salvar vidas... e tenho na ponta dos meus dedos uma magia especial cá guardada...
Por cada fluxo negativo explodindo em mim, como uma onda na praia, e ficar a ver aspergir-se lágrimas de sal em tudo o que existe e sempre existirá...

Mas eu tenho uma magia... na ponta dos meus dedos...

E um dia só por os conseguir estalar farei desaparecer desta casa o hábito e deste corpo o medo...

E vou espalhar como sementes as coisas novas que hão-de vir.
E hei-de vê-las florir...
Quando em mim terminar a ganância pelo passado...
E esta incessante desilusão com vocês todos.

Version 1.5.
Stop Script

4. Lasers go through Monkeys

Version 1.4.

"Guide to a moving target"

Start... Now:

Lembro-me como se fosse uma outra era.
E visse aquelas imagens como retratos tirados a sépia de gente respeitável em pose séria sustentada pelos seus bigodes farfalhudos e os seus trajes vitorianos.
Era mais ingénuo na altura e como tal mais disponível a lutar e a importar-me menos com as agruras.
Lembro-me que estava noutra cidade, quase não conseguindo respirar entalado com o nó de uma gravatinha rosa numa pessoa habituada a andar de ténis na rua.
Ainda sentia o rosto quente das lágrimas da véspera quando me abandonaram lá dizendo que era o melhor que fazia(m).
Devia-me recordar de outra coisa, mas recordo-me de como tinhas dito que se eu pedisse à Lua vermelha uma coisa que desejasse muito ela encarregar-se-ia que eu a conseguisse...
Fiz mal, pedi-lhe para estar naquela cidade em vez de lhe pedir para estar contigo.
A lua se sabia que eu não podia ter as 2 coisas ao mesmo tempo, não mo disse, e deixou-me ficar com uma.
E eu iludido pensava que já tinha ganho a outra.
E como tal, estava ali na outra cidade. Sozinho, esperando as 9h da manhã.
Chegaram como um vendaval, e por entre as novidades íam insinuando as mentiras que eu tinha de vender.
Aos poucos comecei a trocar a consciência por acessórios de cabedal e portáteis novos.
E enquanto ardiam cigarros, ardia com eles a minha paciência para me aturar.
Dizem que cresci quando eu lá estive. Fosse pela inveja ou pelas lições, eu cresci mesmo.
Mas não gostei muito de me ver já gente crescida à frente ao espelho a fazer a barba de manhãzinha.

E então, tornei-me terrorista!

A minha primeira bomba explodiu bem lá no fundo (devia ser quê? Um velho sotão talvez) seria por causa da minha sorte de principiante talvez, mas o que é certo é que o edificio rui com estrépito por lhe ter atingido as fundações.
A segunda bomba já foi mais complicada e exigiu detonador à distância... arquitectei a peça sozinho, enquanto conduzia interminavelmente nem eu sabia bem para onde. Quando premi o gatilho ainda demorei uma semana para ver a explosão...mas senhores... se valeu a pena! As ondas de choque duraram anos!

Depois já não havia mais nada a estourar... e cai no tédio...
Não me levantava da cama e esqueci-me que os dias passavam.
Tinha imenso medo, mas não sabia do quê... seria pelos meus anos no submundo, pensava que ainda me apanharia a polícia (aquela dos radiohead?)

Quando acordei (ou seria um sonho ainda?) estava num lugar onde quase tudo tinha começado e apertavam-me a mão.
Eu estava a sorrir mas não sabia bem de quê.
Nunca percebi aquele gesto...
Estaria cego por aquela parede de granito fechando-se sobre mim?

Version 1.4.
Stop Script

Friday, April 04, 2008

3. Yeduhi Lights

Version 1.3.

"Guide to a moving target"

Start... Now:

Alcoolismo de fim de semana, ou uma doce sensação de loucura pulsante entre a violência e uma perda irreparável.
Ou então lembrar-me da tua excelente dicção, da tua enciclopédia oscilante, da tua arte postal.
Das inúmeras maneiras como me querem moldar a um certo molde que têm.

Eu sou a luz.
E vocês a sombra...
Eu sou a luz da manhã.
A luz que desperta.

Não me alimentem com óleo, não queimem os restos fossilizados de plantas para que eu arda brilhante, não cortem nenhuma árvore para dela fazer lenha, por favor não façam carvão.
Combatam me de manhã, no campo de juncos, desembainhem as espadas e manchem o aço com o meu sangue.
Porque nenhum de vocês percebeu que é isso que me dará vida.
Não me coloquem amarras, eu quero ser livre, não me prendam à esperança, matem-na antes que a contenda comece, não esperem por mim, venham ao meu encontro pelas colinas, venham ao meu encontro pelas montanhas, pelas planícies.
E lutem como se não houvesse amanhã, como se quisessem salvar-se a si próprios e não me quisessem salvar a mim.
Não tremam perante o meu golpe, algo mais forte do que eu parará a minha mão antes que embata, não confiem que o meu escudo pesado é mais forte, nem que o meu machado de guerra pesado. Combatam-me com lanças ou com as vossas próprias mãos núas. Retirem peça por peça a armadura e deixem-me estendido no chão.

Quando se prepararem para dar a estocada fatal, vejam então como os meus olhos pedem que seja directo ao coração.
E aí enterrem com força a lâmina no chão.

Não me matarão, mas ganharão o estandarte que defendo.

E as chaves do castelo inexpugnável.

E a luz que eu sou brilhará de novo.
Quando tiver que brilhar.

Version 1.3.
Stop Script

2. Polaris

Version 1.2.

"Guide to a moving target"

Start... Now:

É este o planeta em que vivemos.
Histórias descabidas de lealdade e corrupção, o universo paralelo, onde tudo parecerá fazer sentido, e onde mais importantemente a uma acção seguirá uma reacção consentânea, existem para lá da tua mente.
Este é o universo paralelo, entra guiado pela minha mão.
Vê como a minha razão lhe desenhou as leis e é a minha vontade a servir de gravidade.
Eu é que lhes explico as leis, e faço chover quando me apetece.
Se eu estou em dia não, farei trovoar porque me apetece.
E se porventura o acharem injusto, não se iludam, ele é tão arbitrário como as leis que me regem o comportamento.
Se não gostarem inventem vocês o vosso, e chamem-lhe o que quiserem desde que não me convidem a lá entrar.
Sou físico demais para me importar.
Sou intransigente demais para não me queixar da cor que deram ao céu.
Sou metafisico bastante para lhe ler as sombras e não gostar de vocês.
Sou irreverente demais para não levar comigo o meu leitor de MPtrês e não escutar o vosso monólogo dançante, preferindo a isso os sons melódicos de god is an astronaut.

Não me encham de vocês que eu não preciso.

Não me peçam palavras que eu não as tenho.


Eu sou o habitante número 10 deste planeta e quero-me matar para inventar o próximo.

Version 1.2.
Stop Script

Wednesday, April 02, 2008

Cover Sleeve

Monday, March 31, 2008

1. Frienemies

Version 1.1.

"Guide to a moving target"

Start... Now:


Será que custa assim tanto.
Por um momento ser mau?
Não pedes nada a ti próprio, que outros, no lugar de oponente não fizeram com grande proveito.
Mas será assim o resultado tão importante que justifique o meio?

Haverá entre esses, aqueles que acordem todos os dias de manhã, sem se preocuparem demais com quem os vai receber no final do dia... se a sua própria consciência fria e cortante como o vento do qual se abrigam, se um igualmente frio resultado, tão sincero e concreto como a jarra de vidro que têm à entrada da sua casa num móvel antigo que veio do lugar que negaram à muito.

Porque um dia regressas de uma rotina marcada, e num inspirado reflexo de fim do dia vês naquele horizonte o sol a pôr-se e tu sem a certeza de que alguma vez o vais ver a levantar de novo. E de certa forma vês claramente, de olhos semi-cerrados por causa daquele disco alaranjado que te cumprimenta no final da estrada, o que te andaram a fazer estes dias todos... E de certa forma pedes-lhe que sejam como tu, e tenham príncipios, porque até ao contrário do que acreditavas, são mais as vezes em que te salvam os princípios dos outros do que as vezes que são os teus próprios princípios a salvarem-te, pedes-lhes que não tenham esperança, ou no minimo pedes-lhes que se as tiverem, que as passem pelo menos pelo crivo equilibrado da consciência, acrescentas que se o não fizerem podem olhar para as tuas cicatrizes internas e externas como prova viva de que criticamente não há veneno possível que mate os teus fantasmas... mas...

Se reduzirmos tudo á essência... resta a esta questão, um ponto de coerência...

Chamem-lhe confiança e ofereçam indiferença, ou hábito, ou rotinas ou mesmo uma cidade, um país, ou outro continente... ofereçam-lhe tudo o que conta para alguma coisa... ou não ofereçam nada, resistam! Resistam à passagem dos dias indiferentes... enquanto esperam que a rotina os apanhe... ofereçam confiança...

Nem sequer no futuro... não ofereçam confiança no futuro... ofereçam confiança a vocês próprios.

E tudo... mas tudo... vai correr bem.

Quando não correr... blame it on the black star...


Naquela noite sabiam intimamente mas não o queriam confessar que algo de muito bonito morreria alí por entre o orvalho nocturno de final de verão e a ponta do cigarro que partilhavam abraçados.
Já nem a cama podia ser a mesma de outras vezes, já não escolheram um lugar estranho para o fazer...
Foi mesmo alí, no único espaço que restava por não ser deles.
Fizeram amor...
E ficaram abraçados a ver morrer o dia...
Morreram com ele.
E no outro dia acordaram diferentes.


Version 1.1.
Stop Script

Sunday, March 30, 2008

Far From Home

Nothing as it seems

don't feel like home, he's a little out...
and all these words elope, it's nothing like your poem
putting in, inputting in, don't feel like methadone
a scratching voice all alone, there's nothing like your baritone
it's nothing as it seems, the little that he needs, it's home
the little that he sees, is nothing he concedes, it's home
one uninvited chromosome, a blanket like the ozone
it's nothing as it seems, all that he needs, it's home
the little that he frees, is nothing he believes
saving up a sunny day, something maybe two tone
anything of his own, a chip off the cornerstone
who's kidding, rainy day
a one way ticket headstone
occupations overthrown, a whisper through a megaphone
it's nothing as it seems, the little that he needs, it's home
the little that he sees, is nothing he concedes, it's home
and all that he frees, a little bittersweet, it's home
it's nothing as it seems, the little that you see, it's home...

\
no sound, just the lyrics under water.

Sunday, March 23, 2008

White days and Martini Bars


...Something borrowed...

...Something blue...

...Every me and Every you...





\me junto do bar...

Sunday, March 16, 2008

Fire Flies and Empty Skies...


And all is Violent

And all is Bright...


Reflicto sobre palavras.
Palavras como invólucros vazios de balas que uma vez disparadas apenas testemunham o tiro e nunca o alvo.
E no entanto, não seriam essas carcaças vazias, ainda fumegantes e quentes da pólvora que explodiu no seu interior, aquilo que mais interessaria a quem as recolhe do chão para não deixar prova do crime.
Seria talvez o corpo morto, estendido no chão e o seu sangue, também este quente, que vai formando um pequeno charco debaixo dele.
Mas nunca o podemos ver, vemos as palavras, como invólucros de balas, e desenhamos o alvo, ou o corpo estendido no chão, com a limitação cega e alguma imaginação.

São como estas teclas que bato, pensando no corpo.
Por cada letra impressa aqui é mais um invólucro que cai... e vou-me entretendo com o som do aço ressaltando no chão enquanto o meu olhar se desvia para as faíscas que espalha pelo ar o percutor batendo naquele ponto minúsculo que libertará a bala.
E o meu olhar perde-se do alvo e já não o reconhece (estará tão distante assim?...), prefere concentrar-se nos desenhos que traçam no ar aquelas faíscas brilhantes desenhadas contra o negro do céu, prefere escutar o som metálico-vazio que enche o ar e abafa o grito, prefere olhar para os invólucros por serem o único testemunho que sobra da sua arma vazia.

Transcendentemente ainda pensaria nas razões que me levaram a disparar a arma, se estas não fossem tão casuais e arbitárias como o trajecto visível das faíscas no ar...
Impreterivelmente marco hora e ocasião para traçar o projecto das suas motivações secretas, da alquimia imperfeita da mistura explosiva, da impetuosidade com que rasga o espaço...

O mais importante escapa-nos pelo canto do olho apesar de pressentido, olhamos o ar.
Apanhamos palavras como invólucros de balas, aspergidos no chão.

E são tão insignificantes que as recolhemos às mãos cheias, sem destino que lhes dar...

Se ao menos as balas comunicassem connosco, não por palavras, mas por todos os sentidos, inventados ou não, que se tem para se conhecer alguém, como uma força invisível que nos levasse a fundir com a vítima e fazer entender com o nosso próprio corpo o que é sentir uma bala a entrar.

Se ao menos não fossem as palavras, mas sim a sua ausência, que de algum modo dessem sentido às coisas, que de algum modo permitissem encher o céu com mais qualquer coisa do que faíscas breves de algo a explodir...

Imaginamos tudo, para preencher as vagas incompletas daquilo que não sabemos ou queremos ver, e a cada coisa atribuimos o sentido, um sentido muito próprio que não passa de um reflexo distorcido de cada um de nós...

E de certa forma inventamos igualmente um sentido...
Que nada poderá ter de real, desenhando-o a metal e a fogo, desenhando-o apenas, contra o céu que continua vazio...

E eu não sei ver, porque não penso nessas coisas...

Entretenho-me a ver as faíscas a cruzar o ar como fogo de artíficio incompleto celebrando algo, que dificilmente poderei entender...


/me on intervalo pulsante (...)

Thursday, March 13, 2008

Bouquet



Faço de palavras contraditórias uma estrada estreita por onde encaminho os meus passos vacilantes rumo a um destino do qual desconheço a forma, muito embora lhe conheça o nome.
Serão os outros, todos aqueles que respiram como um pássaro assustado entre duas mãos fechadas, todos esses que do alto da sua invunerabilidade me olham como um exemplo de algo que não pretendem que esteja com eles no dia a dia, na azáfama quotidiana de querer abarcar um mundo só com a força de o querer para eles...
Falo de palavras ou da ausência delas quando me apanho em contradição gritante, quando o mundo revoltado regurgita certos factos insustentavelmente leves, flutuando à minha frente como núvens, como um nevoeiro demasiado espesso onde me afundo sem ter qualquer força ou intenção de me debater para sair e que mesmo assim me afogam, e que mesmo assim me confortam com a vaga esperança ou ideia que nunca perdi de que haverá algo ainda que resiste, bem lá no fundo de todo e qualquer coração humano, onde permanecerá intocado uma réstia de dignidade humana ou de respeito.
Surpreendem-me pelas noites, ou pelos dias, ou pela obrigação matinal não esperada cumprida veladamente do alto da minha impotência, do alto da minha vulnerabilidade humana, da minha condição descrente, da minha humanidade imperfeita.

Deito-me no chão e aconchegam-me várias mãos sem eu sequer ver as caras dessas pessoas que me aconchegam no leito e me cobrem vagarosamente com um material fofinho e aconchegante, mas não, não me deixo dormir, quando é o que eu queria, não me abandono à ideia sempre presente em mim de chaga aberta em culpa, não é que propriamente lute, mas antes me conformo àquele espaço restrito do qual quero fazer todo o meu mundo.
Mas puxam-me lá para fora as conveniências, todo um espaço onde só eu sei existir e para o qual anseio voltar, como um espaço de vida, como o meu espaço de vida. Agora os meus limites não se fazem de tecidos suaves mas paredes frias e assépticas, de uma desumanização gritante... por vezes fazem-se de corpos de encontro ao meu, corpos onde eu procuro sem encontrar aquele ponto chave central de onde irradiará todo o movimento (inclusivamente o meu) para a frente, sempre para a frente, irreversivelmente para a frente.

Serão os estados de espirito ou as palavras que me lançam, surpreendentes como flocos vagarosos de neve caindo no meu dia de anos, fechadas e mortas como um ramos de flores, incapazes de ressuscitar por qualquer truque mágico num qualquer vaso com terra onde possam permanecer ad eternum alimentadas, seguras e hidratadas.

São como sonhos, todos aqueles ramos compostos a explodir entre o verde. São esperanças que explodem e cristalizam em pétalas, são dificuldades em cada espinho cortante onde quero espetar as minhas mãos para que a dor me recorde que estou vivo, para que o meu sangue escorrente se disfarce de água e terra e lhes devolva a vida.

É o silêncio do espaço entre quatro paredes quando todas as folhas pedem um instante de vento.

E eu estou nesse intervalo.

Sem acreditar.
Contrario-me.
E porque me contrario consigo acreditar.


Não tenho razões, ou argumentos, são tão pretenciosos como uma folha de papel que envolva o ramo, é apenas mais um frame da moldura, mais um intervalo do tempo que cristalizou aquele quadro.

E se só pertenço ali, querendo também pertencer cá fora, procuro essa terra também para mim, uma terra capaz de devolver à flor a planta, de lhe devolver o calor e a esperança de que nunca irá ser cortada agora que arrefece a cada segundo que passa entre as mãos de quem no fundo só lhe quer bem.

É impossível.
E, todavia, contrario-me.



Dedicado a M.

\me on "sunrise on aries" God is an Astronaut

Friday, March 07, 2008

Mars

Um bacalhau bem temperado por entre copos de tinto carrascão numa tasca perdida entre o hospital e o Porto ainda dá para fazer um bom final de dia. A 5€ a festa, é crime chorar a jorna...

Era o Benfica não ter perdido e ficava perfeito.

Por entre as estórias mais crúas sai-se um tal de terapeuta Fonte com uma verdade incontestável:

"Na casa onde se ganha o pão, não se come a carne"

E eu:

- Mainada- enquanto empurrava uma argana de bacalhau com um bom trago do tinto e via o Mantorras a marcar um golo.

Soubesse isso antes e aturava menos malucos.

Mas o lema é mesmo:

" Se a XXX é para ser, para o estouro a XXX"

Tralala mais fotos, provavelmente para os cacifos, quem me conhece já sabe que eu gosto destes aforismos, pelo que me citam constantemente na minha frase mais célebre "vaca presa também pasta", pelo que é mais uma a cravar na memória.


É bom ser homem.

Saturday, March 01, 2008

Far From Refuge


V.P.F. God is an Astronaut

V.P.S.F.F.


Foi uma daquelas sextas-feira que se ganha após uma luta ingrata contra o sono e a neblina matinal de um sábado prévio que prolonga a minha semana de trabalho para 6 dias ininterruptos encerrado entre 4 paredes tendo por companhia mais um daqueles doentes em coma que procuramos salvar contra todas as probabilidades e vontades, incluindo as nossas.
Fuck
I want to shout it loud
And I'm not black, and i'm not proud

Interno a minha vontade e deixo que a curarizem.
Semanas de febre ininterrupta cozem o meu cérebro no interior do meu crâneo como um ovo.
Fui cardiovertido 6 vezes, ressuscitei por volume mais umas quantas.
O meu sangue é filtrado por máquinas e a força do coração controlada por drogas.
A paciência... bem a paciência deixo-a esvair de mim, como o meu sangue, espero que inventem o filtro, ou o soro capaz de lhe devolver a pureza, para que quando chegue a este coração, ou a este cérebro, renove a sua vontade de viver...
Mas não, espera um pouco.
Mas se sou eu a fonte do veneno.
Deixa o meu corpo arrefecer e não o aqueças...

A consciência já me abandonou à muito e espera por mim no sítio onde repousarei quando todos percebam que eu já não tenho vontade de continuar.
Quando todos deixarem de acreditar, mais do que eu, na minha própria esperança.

Tive um tempo de vida e é para lá que quero regressar. Inteiro. Muito antes de me retirarem aquilo que voluntariamente destruí. Muito antes de insistirem comigo e me apontarem as razões que tenho para continuar. Selei o meu destino, e o meu corpo já decidiu onde repousar a melhor parte de si, deixem também cair esta concha vazia.

Se ainda discutem se o meu olhar se dirige, por favor saibam que ele se concentra no tecto para projectar no último quadrado branco da minha existência os momentos bons pelos que passei.

É que já não tenho sítio ou corpo para o qual voltar... deixei-o corromper, e não há nada por que valha a pena voltar...

Se os motivos pelos quais o fiz são válidos ou não, não vos compete a vós julgar.

Insistem para que eu volte atrás quando eu já preparo os meus argumentos para quem os pode julgar.

Eu não quero viver, quero ser julgado, quero saber se tenho direito...

... direito a voltar...

Mas inteiro.

Não neste corpo que eu deixei corromper.

Não neste corpo onde travais a vossa última batalha, sem que eu tenha interesse nenhum em que ela seja ganha, por qualquer um de vós.



What's wrong with this picture?

Dopa kind of life
Nora kind of beat
Dobuta kind of soul

Friday, February 15, 2008

Rotinas.

Há, perto do sítio do qual me quero despedir, certo café de bairro...

(e é isto que me encanta no Porto, ambicionando ser cidade grande, cosmopolita, seja pela população ou pelas majestosas obras e produções desde o estádio do Dragão à casa da música, tem aquele espirito bairrista, aldeão até, em que numa simples freguesia, as dinâmicas sociais que aparecem têm a ver com uma cumplicidade de vizinhos que se habituam a ver, como num simples café, que não ficaria mal perdido numa aldeola qualquer do nosso país, onde os clientes habituais se conhecem pelo nome e cumprimentam, jogam jogos de azar e oferecem finos, estranhando se num ou noutro dia um deles não aparece por lá)

...onde aparece regularmente certo personagem, aparentando ter saído de um qualquer conto de Edgar Alan Poe.
Este homem senta-se habitualmente no balcão, não precisa de pedir nada, trazem-lhe sem pedir nada os 3 copos habituais.
1 deles traz água, o outro um compal de pêssego e o último é um balão, com uma dose generosa de aguardente de uma qualidade mais apropriada à desinfecção de feridas do que à ingestão humana.
Enquanto vai alternando a ingestão das 3 bebidas, deixando sempre para o fim o copo de água, o homem puxa de uma banda desenhada da Dysney e vai lendo enquanto murmura comentários imperceptíveis, ainda não percebi muito bem se sobre o que está a ler ou sobre a vida.
Uma vez por outra, vem apetrechado de um leitor de Mp3, ouvindo qualquer coisa enquanto o mesmo ritual é cumprido.
Não sei se todos os dias, nem eu tenho vida para lá estar como ele na mesma moldura humana que parece fazer parte da mobilia da casa, mas na maioria das vezes que eu lá vou, encontro-o sempre, cumprindo com fervor quase religioso aquela sequência de eventos com a qual a vida lhe parece fazer sentido.
Não tenho, como já deu para ver, grande esperança na raça humana. Não gosto particularmente das pessoas. Com este tipo em particular, encontro um certo divertimento em observar a sua rotina perfeitamente ensaiada assim como a indiferença ou reprovação dos olhares que caem sobre ele.
Não me parece muito diferente, no que concerne à forma, do que tudo o que os outros fazem por aí.

Há uma certa genuinidade na loucura, menos hipocrisia até.
Ainda bem que não há muitos como eu, para que este mundo aparente funcionar...

Sunday, February 10, 2008

La Décadence...

On va parler en Français, parce que c'est la plus beaux langue to dire,

La Décadence,


Já não olho para trás porque tenho medo de tropeçar nos meus próprios pés se o fizer. O caminho faz-se inexoravelmente para a frente, num passo ritmado e não confio particularmente em mim, ou nos meus próprios passos, para desviar o olhar do meu próximo objectivo que é somente aquela nesga de terra em frente onde o meu pé caiba para dar o próximo passo.
Interrompo a corrida para um café descontraído numa tarde de Inverno onde coube o sol. Mexo vagarosamente o café maldizendo a puta da lei que num café vazio não me permite agarrar um cigarro para o acomodar o estômago. Assim resta-me aquele travo amargo do qual me quero desprender no fundo da língua, que irritantemente transforma o meu discurso numa coisa muito mais vagarosa que não condiz comigo. Por um lado é bom, penso eu, permite-me pesar as palavras, nos dias que correm a nossa mão não pode ser muito ávida a agarrá-las podendo cair decepada pela lâmina afiada de uma condescendência paternalista que nos rebaixa.
Falamos de banalidades, como cinema... ou futebol... ou até mesmo gajas... noutro dia (seria noutro tempo talvez) ainda as trataria como iguais, mas não, resta-me aquela ponta de cinismo solitário, amargo talvez, por não compreender as preocupações comezinhas de quem faz de lugares comuns o ponto fulcral a partir do qual irradia a existência. Mas a nossa mente, resvalava perigosamente para esse olhar despretencioso a partir do qual perpectivamos as coisas.
Loucas, repetia eu, insistentemente, perante a ainda resistente esperança de quem espera mais da vida, loucas, as pessoas são loucas, enquanto inumerava histórias e desvendava motivações, encenando um palco, dispondo as luzes e os adereços, por acaso quero ser ministro de uma religião anti-social por não me adequar ao mundo?
Talvez num outro mundo, ou noutro tempo, tivesse eu a consciência para tal, e revoltar-me-ia com aquela indolência de final da tarde, com os matizes cinzentos com que ainda perspectivávamos as coisas apesar do dia estar de sol. Mas como sou, como sou, pergunto-me a mim mesmo sem achar resposta, ou mesmo sem achar resposta no interlocutor, quem nos ensinou a nós o cinismo ou a maldade, a hipocrisia e a falsidade. Mais do que isso, perguntaria se achasse que por acaso existe uma resposta para isso, o que nos levou a aceitar essas lições como verdadeiras e válidas integrando-as em nós?
Será só desilusão, ou tão só, falta de esperança?
A melhor resposta para isso reside naquele travo, como o do café proibíndo o cigarro, de injustiça que nos parece perseguir como um fantasma.
Crescemos acreditando que a um esforço válido se seguiria uma recompensa proporcional. Como a escalada dificil a uma figueira arriscando a repreensão do nosso avô, somente porque no topo estariam aqueles figos pretos a adquirir negrume bastante para fazerem deles um fruto não excessivamente doce.
No mundo real, ou da gente grande, como lhe quiserem chamar, não abundam recompensas, abunda, isso sim, frutos esparsos, apetecíveis, mas sem ramos para lá chegar que não os da sorte, fortuna, influências ou status. E a esses, caro amigo, de pouco vale o esforço ou compaixão.
E não se fazem de queixas os nossos dias, mas de uma cristianíssima vontade de dar a outra face.
Se depois de outro estalo, outro estalo se segue, resta-nos uma última tentativa do orgulho para permanecer de pé, e uma solidariedade bastante que nos compele a bater com a mão no ombro do nosso amigo e dizer-lhe:

"tu já passaste por muito..."

Um abraço sentido.


\me on god is an astronaut "far from refuge"

Saturday, February 02, 2008

Pós-Modernos.

Sinto-me velho.
E não o digo por me pesarem os dias, ou as pernas, ou qualquer outra parte de mim que se arrasta no tempo.
Digo-o porque no dia de hoje ainda me estranho com a intemporalidade das coisas.

Lembro-me de uma vez, há já muito tempo atrás, ler numa aula um conto qualquer de Eça de Queiroz. Estabelecia-se um paralelismo com uma frase batida de um pensador que eu só li um par de anos depois de ter lido aquele conto. Esse pensador, Nietzsche, dizia que aquilo que não contas ao teu maior amigo, contas com maior facilidade a um estranho numa estalagem. Isto para dizer que provavelmente só saindo dessa imagem que criamos para quem queremos que goste de nós é que podemos falar dos segredos mais profundos...
Mas voltando ao nosso bem mais português Eça, contava ele sobre certa figura escorreita, de olhar digno e pose certa, metido dentro de um fato barato mas digno, barbeado na perfeição, que se deliciava com um cálice de Porto após uma regrada refeição, sobre este, insisto eu, tudo se falava, ou indicava, uma rectidão moral à prova de bala, um carácter granítico, um homem de honra portanto. E sobre ele caíria uma tragédia como que provando o seu carácter, para ver se a sua vontade cederia perante as várias tentações da carne... acho eu... que a esta hora a memória já não é certa quanto a factos ou argumentos. Se a história não for assim que me perdoem o erro, mas se a reinvento aqui, é tão só para provar a afirmação de que estou velho, ou pelo menos ultrapassado, e que pouco valor tenho excepto para uma qualquer colecção de museu perdido, destinado a visitas de estudo ou turistas nipónicos.

Sou, um pouco, do tempo dessas histórias de rectidão e honra. Não viesse eu de um lugar onde por uns palmos de terra ou umas quantas palavras mal medidas, se retirassem vidas humanas à frente de uma caçadeira de duplo cano e chumbo grosso.
Sou desse tempo em que as pessoas, mesmo aquelas que faziam parte do imaginário popular como as mais desafortunadas ou dignas de escárnio, eram insubstituíveis por serem únicas, por trazerem à vida colectiva uma nota particular que fazia do conjunto algo de muito mais harmonioso e regrado. Um pouco como uma paróquia de aldeia, onde tão insubstituível seria o pároco bonacheirão que colectava pela páscoa as dúzias de ovos com as quais mataria a fome às governantas e afilhados, como o doidivanas que se abrigava à noite no palheiro dos ricos, e que durante o dia mendigava uma côdea de pão enquanto assustava as crianças.
Sou desse tempo, dos apertos de mão e dos homens sérios, de bigode e camisas de linho branquinhas coradas à beira do rio... bem... talvez não seja tão velho assim... mas pelo menos sou do tempo em que as pessoas importavam, ou pelo menos valiam qualquer coisa, e eram estimadas por isso, onde seguramente, após um esforço grande teriam uma recompensa consentânea.
Custa-me ser mais deste tempo, onde as coisas são complicadas. Porque se o esforço ainda se faz à luz do dia, e todos vêem, os interesses jogam-se nas sombras, e são sempre esses a decidirem o resultado final das contendas.
Já não chega mostrar para se ter, já não há palavras como sacríficio, ou honra, ou entrega, quando cinicamente se esconde, ou jogam cartas, consoante os interesses profundos, perversos, ou mesmo animalescos dos grandes deste país.
E no final de tanto cinismo, a simplicidade paga-se caro, paga-se em lágrimas outra vez derramadas à luz, para todos verem, por entre os abraços hipócritas de todos aqueles que jogaram nas sombras para os resultados serem tão reais quanto aquelas lágrimas que aparam num ombro que nada tem de amigo.
Estamos todos vendidos, porque temos nas nossas curtas vidas, demasiadas coisas a perder, e cedo percebemos que quem ganhou ganhou o que alguém perdeu.

E eu estou velho para perceber estas coisas, e não sei ver para além do que a luz me mostra...

Sou um dos poucos ombros que recebe as tuas lágrimas sem nada ter feito para as provocar. E tu sabes disso. E por isso me procuras de noite, na hora em que tu sabes que eu saio do sítio que é teu... por ser mais teu do que daqueles todos que ficam.
E esperas por mim, sabendo que eu sou o último... e sou igual a ti... vou perder o que tu também perdeste, e na consolação da perda resta-nos o ombro mútuo e aquele abraço que trocamos quando as luzes se apagaram e me disseste "eu tenho medo" e eu não soube dizer, porque tenho honra e não te minto, que em mim não tenho forças que cheguem para te proteger.


Dedicado muito especialmente à Rute.

Sunday, January 13, 2008

Flatline


Saí do jantar à noite e pensei que já há muito tempo que não via um céu tão estrelado como aquele.
Era tão só um jantar de trabalho, daqueles que se fazem para agradar as chefias com a ideia de que o cimento que une a equipa é um pouco mais do que as convivências normais de trabalho e que trancende este para se substanciar lá fora.
Não sou amigo da maioria daqueles tipos, com as suas gravatas impecáveis e os seus dentes brancos polidos. Arrogantes e confiantes ao volante do carro que a empresa pagou para eles, confiantes nas suas palavras, passando por aí altivos arrastando consigo um odor familiar a um perfume caro.
Não me apetece agradar-lhes e nem por isso me apeteceu vestir uma gravata mesmo para aquele jantar social.
Sai do jantar já farto de falar das suas conquistas e das suas proezas.
Cansei-me de os ouvir desfiar as suas conquistas, sejam de gajas, carros ou clientes por entre garfadas de um bacalhau com broa demasiado salgado para o meu gosto.
Achei particularmente irritante o sujeito nervoso que chefia o departamento. Um tipo de palavras caras e bom gosto que encarrilou a vida depois do seu master em gestão. Contava ele, a pretexto de uma qualquer bugiganga que trazia como adorno, de como tinha levado a sua namorada a um país qualquer da américa do sul.

Não me interessava particularmente isso. Não por um sentimento qualquer de inveja, mas por um simples sentimento de tédio que me davam todas essas histórias de felicidade alheia promovida a estatuto social.

Saí à rua e já nem sequer pensava em todas aquelas palavras que eram ditas, em todas aquelas histórias e sorrisos.
Pensava como o céu tinha estrelas e cantarolei uma qualquer canção que me falava disso, já sem saber muito bem quem a cantou.

Já no parque de estacionamento, um lugar ermo e mal iluminado, deixei-me ficar para o fim, e esperei que aquele ventinho que se levantava de norte, não se transformasse numa saraivada de facas afiadas que mal permitiam manter os meus olhos abertos.
Muito depois do último carro ter partido, saí do carro para mais um cigarro saboreado ainda com o travo do café e os olhos pregados no céu.
À minha frente apareceste-me tu, arrepiada no meio do teu casaco de penas que te fazia um pouco mais gorda.
Ficas-te a olhar para mim à distância de um metro e todo o teu corpo tremia pedindo um pouco do calor do meu. Seria por vergonha ou um pudor muito próprio, mas a única coisa que me pediste foi um cigarro do meu maço que acendeste com o prazer muito próprio de alguém que não sente um sabor assim desde muito tempo atrás.

Começaste a falar de ti, como se eu não te conhecesse de lado algum. E de novo me relembraste de todas as pequenas coisas que te marcaram a pele como se a ponta desse cigarro que seguravas na ponta dos teus dedos finos se encostasse à tua pele por cada desvio do caminho que tomavas em algum ponto da tua vida.
E sem qualquer sobressalto, porque a preparação era desnecessária, passaste ao que realmente interessava:

-mas então... e tu que contas... o que tens feito?
-nada em especial, trabalho ocasionalmente e mascaro-me de risos que tornem mais suportável o meu dia àqueles que se atravessam à frente. Ocasionalmente fodo e continuo a fumar um cigarro depois como bem sabes. Ocasionalmente compro qualquer coisa para casa e perco uma tarde inteira a pensar como vou reorganizar as coisas de maneira a encaixá-la lá. De vez em quando cozinho um prato especial, acendo uma vela e abro um bom vinho tinto que deixo respirar 15 minutos antes de o servir numa mesa posta para 1... de vez em quando...
-chega.
-Já te chegou?
-sim.
-mas não tinhas perguntado porque querias saber?
-sim, mas como sempre fazes falas demais... não me interessa como passas os teus dias... quero saber o que se passa contigo.
-mas eu só sei falar do que faço, o que queres que fale, queres que fale de mim?
-quero que fales de tudo o que importa...
-e se eu não tiver nada que importe?
-dá-me mais um cigarro para o caminho e deixa que me despeça de ti assim... se quiseres continuar o jantar tens amanhã, ou o dia seguinte, mas esta noite és meu e eu mereço mais do que isso...
- mas eu para ti... já não tenho palavras...
- então... porque é que as usas?

Uma trovoada ouviu-se ao longe e ao som do primeiro trovão, apagaram-se as poucas luzes que ainda suportavam a atmosfera daquele parque. Depois tudo se fundiu na noite como os nossos corpos se fundiram um no outro.

Recordo vagamente um abraço, e várias lágrimas gordas que lhe molharam as costas. Instintivamente as minhas mãos souberam procurar o seu corpo e souberam coisas que por palavras seriam inexprimíveis.
Enquanto lhe tirava a roupa vagarosamente, despia-me a mim mesmo da carapaça dura com que me revestira ao longo daquele deserto.
Quando a penetrei, rompi com qualquer coisa em mim e percebi desde logo que não a queria reparar.
Quando tivemos um orgasmo comecei pela primeira vez a sentir.
E depois abracei-a encostando o meu peito às suas costas envolvendo-a por trás sem perceber onde terminava o meu corpo e começava o dela, ficamos a ouvir a chuva a cair enquanto adormeciamos devagarinho.
Nenhuma palavra foi dita.

Nem para dizer adeus, quando no dia seguinte ela teve que partir.

Sunday, January 06, 2008

...for a friend...

Is that thing about diamonds isn't it? 'cause if they're real they can cut trough glass 'nd make lasers slice trough monkeys... that's why they're so valuable... 'cause they make lasers go trough monkeys or something...

Já perdi a conta aos cigarros que fumei...
Provavelmente tantos que destacaram alguém da ASAE para me seguir para todo o lado a ver se piso a linha... Se esse senhor me estiver a ler que descanse por um bocado que me faltam uns quantos milhares de euros na conta para ocupar as minhas noites no casino de Espinho.

Já sei o que quero:

Quero alguém que me ajude a ver para além do dia seguinte.

Acho que chegava lá por outros lados mais amigos dos meus pulmões, mas andei perdido por caminhos travessos.
Estar perdido por 2 anos, não chega para ser record pois não?

O resto são condições minimas de humanidade, não preciso de estar aqui a escrever pois não?

Quem quiser o cargo que me contacte amanhã... Não pode ser para depois de amanhã, porque é precisamente para isso, para que me recordem que existe esse dia, que eu quero alguém.

O teu maior truque, esse do qual nunca me libertaste foi dares-me a certeza que de certa forma podia deixar-me dormir, porque no outro dia encontrava o mundo ainda melhor do que o deixava, estavas lá para o cuidar por mim, para lhe por mais uma flor, ou destapar o véu de nuvens que encobria o céu.
Desculpa quando eu deixei de acordar todos os dias...
Houve esse dia em que acordei... e acordei sozinho...
E encontrei o mundo um lugar bem pior, porque já não cuidavas dele e assim tinha de ser.

Fico com o meu blog e os meus cigarros, a minha falta de esperança e cobardia.
Engulo tudo o que vem e sabe-me a verdade.
Ah... e tenho 1 certeza, inabalável.
Fica para quando eu morrer.

Thursday, September 20, 2007

18


Fui ver estes senhores ao Coliseu do Porto, dia 18. (Massive Attack)
Um daqueles concertos fetiche, a minha vida não estaria completa sem os ver ao vivo.

Actuação demasiado "clean", continuo a achar que tocam muito bem, mas falta-lhes improviso e conectarem com o público nas actuações ao vivo.

Alas, pese embora os 40º de febre, foi o momento alto da semana.


Descobri uma banda Portuguesa excelente, vai editar um novo álbum no próximo mês, até lá podem espreitar os

The All Star Project

Muito bom, fiquei fã.


Saturday, September 15, 2007

11 garrafões de mim...


Hoje acordei ressacado, com o sabor amargo da vingança colado ao céu da boca, por muito esforço que fizesse não conseguia descolar a língua, pronunciar qualquer som.
Descobri que o que me arrasta da cama, pelas manhãs submersas, pelas madrugadas que acordo depois de horas insuficientes de sono, é incomparavelmente mais forte que o mais forte sentimento de vingança que me mova.
Por isso não me levantei à hora certa, não consegui encontrar um ritmo, não conseguia abrir os olhos que permaneciam colados não querendo ver o dia a nascer...
Arrastei-me para o banho onde me demorei mais do que o que devia, vagarosamente escovei os dentes e dei um jeito ao cabelo, olhando como se nunca as tivesse visto para as minhas olheiras, para o meu rosto cansado.
Saí de casa tardíssimo, sem me preocupar muito com o tempo, incomodava-me todo o excesso de ar, todo o excesso de luz e de espaço que me separava do meu objectivo final.
Tomei um café vagaroso, demorando-me a acender um cigarro. O seu sabor acre e forte, mesmo esse, não me conseguiu arrancar nenhum som, não me pacificou, não me soube bem.
Acelerei para lá, pedindo sangue. Por vezes a melhor recompensa que se tem na vingança não é a morte do adversário mas sentir o sabor da sua carne entre os nossos dentes, sobre a nossa lingua, sentir o sabor do sangue ainda quente a escorregar pela nossa garganta humedecida pelo excesso de saliva.
No ar estava aquele cheiro metálico que se eleva dos campos de batalha, aquele silêncio perturbador antes do primeiro grito de guerra. Não fazia nada excepto preparar-me para esse instante perfeito em que cravaria na carne de todos os que me fizeram mal, uma lança afiada, uma lança afiada pelo meu ódio, uma lança vagarosamente esculpida nos dias em que sofria, em que não dava conta da sua passagem entretido que estava a construir esse fio de vida que apenas significava morte. Era uma lança comprida, uma lança comprida pelo tempo, pelo alcance do sentimento, uma lança que de um lado dizia "sucesso", dizendo do outro lado "dor".
Entrei no espaço sabendo ao que ia, avançava destemido com toda a confiança que o meu escudo e o meu pouco medo da morte me davam.
E de súbito não estavam lá.
Não estavam lá.
Não estava lá quem me tinha ferido, não estava lá quem me tinha matado, não estavam lá os assassinos, os perversos, os cretinos, não estavam lá as pessoas, os heróis da mediocridade, os hipócritas, os falsos, os vendidos...
Mas de repente dei conta...
Eu também não estava lá...
Estava um desconhecido armado, desejando sangue e o término das coisas... procurava um ponto final vermelho para uma história trágica, procurava fechar aquele selo no calor da batalha...
O que aquele desconhecido queria era matar-se não era matar.
E como todos os condenados à morte, prolongou os seus últimos momentos em vida...
Agora que o seu algoz faltava à sua própria execução, descobrira, que todo o seu esforço teria sido em vão.
Descobria que se não fosse tão cobarde como temia que fosse, o único destino a dar à lança seria a de a cravar no próprio peito, matando à partida um desconhecido que apenas conhecia o sabor da batalha e que nunca na vida descobriria como viver em paz.
A essas pessoas, desconhecidas, resta uma morte honrosa em batalha com que justificar os seus dias...
Ao próprio, ao conhecido de mim, falta a coragem para partir a lança no peito do desconhecido de mim...
E entre esses dois há esse confronto velado, como dois inimigos frente a frente, tão equilibrados que acordaram tacitamente em não se atacar por não quererem destruir o mundo em que vivem.
O desconhecido virou costas e saiu.
Hoje, pelo menos para ele, não haveria batalha a travar.
Saiu tão contrariado como o conhecido tinha entrado ali.
Saiu respirando rápido e destilando ódio. Há falta de pessoas para matar, esbracejava tentando atingir os seus próprios fantasmas. Passou o resto do dia mal, olhando de soslaio para o conhecido, avaliando a sua própria capacidade para inflingir dor e se esta bastava para acabar de vez com aquele cobarde que não lhe dava um destino merecido.
O conhecido sentou-se a um canto e esperou pela noite chorando, queria ter a capacidade para o libertar daquele destino guerreiro, queria matá-lo. Mas ao contrário do outro, não tinha ocupado os seus dias a esculpir lanças, nem a afiar uma espada que pudesse utilizar agora.
Só havia um destino, matar ou ser morto ali, por todas as batalhas perdidas reclamando vingança seja pela espada ou pela indiferença.
Mas ambos persistem em campos opostos... e na paz armada que se vive, o que sobra é uma intensa revolta que quer desfazer o mundo e quem lá vive.

Pergunto-me se quando decidiste quebrar as tuas próprias tréguas, quando um dos teus lados venceu, porque não aproveitas-te aquele ímpeto para matar um de mim?
Mas agora que penso...
Agora que penso nisso, e não sei se é a verdade, é apenas a minha resposta... não foi esse ímpeto que me dividiu em dois?

Thursday, September 06, 2007

A Essência

"... e descobriram que não podiam trabalhar por ele, teriam de trabalhar sempre COM ele..."


Enchem-se de gritos pela noitinha.
Mostram as medalhas enceradas das suas vitórias pessoais a quem só sabe responder com o desdém de um sentido de humor elevado.
Revoltam-se com isso e gritam ordens como impropérios.
Saraivada de uma chuva de verão, depois disso o silêncio e uma paisagem que transcorre ao longo de uma estrada sem carros.
Procuram-se aliados nos corredores e conspira-se. Se um clama por aquela ajuda divina sabendo que não vem, os outros todos esgotam-se em estratégias conspirativas e punhaladas nas costas.
Contra toda uma muralha de pragmatismo, vagas sucessivas de nomes, palavras gritadas, ordens e insinuações. E um sorriso brilhante com os olhos clarinhos da cor de um mar tropical.
Quando a vara não chega aliciam com promessas e doces comprados numa espelunca rançosa ao virar da esquina, falam do que não sabem ou erguem-se sobre a ponta dos pés procurando ser notados na sua magnífica insignificância,... mas parem... têm medalhas bem à frente no peito, e não se encerram em casa, antes passeiam na rua com todos os seus traumas e cicatrizes esquecendo todos aqueles esqueletos de culpa e remorso que deixaram em casa.
Chamam-lhe de exemplo e oferecem-no a cada gesto sem perceberem que a maioria já viveu muito mais do que aquilo e que mesmo aqueles que não viveram estão demasiados interessados nas suas batalhas pessoais para se importarem com recordações de batalhas passadas de uma guerra que não tiveram.
Falam de coragem, excepto daquela que lhes falta para abrirem a porra dos olhos e verem que o essencial não se muda, o essencial permanece muito para além da ferrugem que já começa a corroer os bordos de medalhas antigas.
Tens o momento, e tudo aquilo que te falta para atingir o próximo. E não se trata da suprema arrogância com que me fitas, nem do teu suposto pudor que te acolhe quando o rubor aparece na tua cara quando vestes os calções curtinhos e utilizas a mão para tapar tudo aquilo que não queres que se veja.
Não me mudas nem por um segundo e pedes-me que te mude por completo num só toque, queres de mim milagres quando eu só sei oferecer truques de algibeira, não, o que te move é tão diferente de mim como a noite é diferente do dia, e não, nunca precisei da tua autorização para saber como sorrir.
Há quem me diga, no outro universo que fica do outro lado da rua, que a verdadeira natureza de uma pessoa nunca se altera. Eu acrescento, mas a essência evolui.
Evolui quando lutam comigo num campo de batalha pequenino e se surpreendem por terem perdido estrondosamente e eu que nem sequer tive que apresentar um peão no campo de batalha.
O meu jogo faz-se de armadilhas e embuste, de dissimulação e engano, e como tal sou estratega, venço batalhas escavando poços quantas das vezes para me enterrar a mim próprio.
Fervem por sangue e querem pintar todos os machados e lanças de vermelho vivo, e eu que nem um escudo apresento.
Por tanto quererem lutar, olham sempre para baixo, olham sempre para o chão, se apenas se dessem ao trabalho de olhar para cima conseguiriam ver-me tão claro e transparente quanto a água que corre aos seus pés, mas não o fazem, mas nunca o fazem.
Por tanto quererem vencer, nunca se apercebem do fácil que seria e enredam-se irremediavelmente em todos os meus fios sem perceberem que quanto mais lutam mais eu me afasto de mim.
Quando encontram o meu fantasma, julgando conhecer-me já perderam a guerra julgando ter ganho a batalha.
Não lhes tirem a satisfação da vitória, nem a mim todo a bendita espessura deste manto com que cubro o que sou dos olhos do mundo.

Tuesday, September 04, 2007

Departure Lounge


Ele não é um nome, é um número.
Não chega a ser uma pessoa, ele é um facto. É um acontecimento fortuito, um produto do acaso.
Ele não chega a ser, mas persiste.
Dizem que não fala nada de interesse, que insiste em dar trabalho por se agarrar demais à vida, dizem que o seu tempo já passou, que ele não é deste mundo.
Dizem que lhe falta originalidade, criatividade, bom senso, dizem que só está bem quando bebe, ou quando fuma, ou quando anda, se senta simetricamente e faz as coisas certas pela família de bem.
Dizem que cada nódoa negra é culpa de outrem, diz que não viram, que são doentes e perversos, que lhe querem mal, que não o suportam nos dias, que não o conseguem ouvir durante as noites.
Mas sobretudo, dizem que a cabeça lhes dói quando acordam, e não se vão levantar...
"Deixá-lo ir"
Enganado
"Vai, mas não voltes"
Perde-te no caminho, morre, pára de vez.
Morre.
Isto é um assalto.


Ela permanece calada quando ele lhe toca.
E quando vem trazer de mansinho, o copo de água que lhe pediu.
Ela não tem nada que seja seu, e no entanto persiste, indivisivel.
Ele pediu-lhe para lhe roubar o corpo aos pedacinhos, ela assentiu.
Contando que demoraria toda uma vida, protelou, até que o fez um dia e descobriu, que em uma hora apenas já possuia todo o seu corpo, e a aridez que entrevia entre os poros se assemelhava a um deserto de ideias que nada faria supor.
Desiludiu-se pensou, de facto, nada lhe interessava para além do corpo que segurava com as mãos sobrando-lhe espaço para levar qualquer coisa à boca, sería um cigarro talvez.
Bocejava.
Nada daquilo lhe interessava para além da rotina de a ter entre os dedos, insignificantemente entrelaçada. Pensava que romperia qualquer vinculo que fosse com um simples afastar dos seus dedos, que ela lhe escaparia por entre eles até ao chão, partindo-se em todos os bocadinhos que ele um dia foi buscar, todos os bocadinhos que se varrem para baixo do tapete da memória, e que se esquecem ao final do dia sentado à beira mar.
Ela surpreendeu-o quando lhe disse "não te quero ver aqui" depois da noite.
Se soubesse que aquela teria sido a última, ter-se-ia comportado melhor.
Se soubesse que aquela teria sido a última, teria aproveitado mais.
Assim, apenas acordou ao lado dela como um desconhecido acorda numa ilha deserta.
Deu-lhe meia hora para aprender a fazer fogo, pescar peixes com um pauzinho afiado e descascar cocos com uma pedra afiada.
Depois disso lançou-o ao mar, e disse-lhe "não te quero ver aqui" jamais.
Ele engoliu as primeiras gotas de água pela manhã e souberam-lhe a sal.
Soube que estava no meio do mar e que tinha que aprender a nadar.
Enquanto aprendia a nadar, esqueceu-se de como se fazia fogo, de como se pescavam peixes e se abriam cocos.
Quando a boca lhe soube a terra, deitou-se de costas, para descobrir que aquele sol queima mais do que esperaria e lembrou-se dela.
Durante 100 anos, não vais poder voltar, disse-lhe o mar.
Durante os teus 100 anos terás de aprender a pescar, caçar, fazer fogo, e abrir a fruta com pedras.
Quando te cortares, sangrarás por 100 anos.
Depois dos 100 anos curarás as tuas feridas com sal.
Por cada ano, 100 cicatrizes.
Por cada ano tirar-te-ei 100 dias de vida.
Até o teu corpo doer e te pedir paz.
Eu dar-te-ei 100 anos.
E nunca, mas nunca, poderás voltar.
Mas tens uma ilha... e duas mãos para usar.


" Well I never came from no ghetto
But it wasn't nowhere near here
Well-spoken girls in stalletoes
Aren't something to fear"
Arctic Monkeys, Cigarette Smoker Fiona

Saturday, September 01, 2007

Indícios.

Quando encontro pessoas conhecidas na rua, pessoas que tenho que forçosamente cumprimentar, quando por mais do que uma vez me perguntam indicações, e pior, muito pior do que isso, eu as sei dar detalhadamente e em pormenor, tudo isso me indica que o meu tempo aqui já passou.

Friday, August 31, 2007

Quais são as memórias que tenho de ti?
Antes dos caminhos divergirem como sempre divergem, quando na mesma cidade nunca tivemos mais do que um encontro ocasional, quando escolheste a tua vida formatada, regrada e produtiva e eu escolhi desfazer-me aos bocadinhos lançado para os lados do caminho.
Existirão memórias?
Ou aquele sentimento venenoso de inveja, por seres sempre o preferido das familias, com o teu sorriso branco impecável, a tua moral do trabalho e o teu percurso sem espinhas.
Ou aquele sentimento perverso de submissão, por eu ser o contrário, ou uma cópia falsa de um original.
Eu não tenho sequer uma memória de ti.
Mas tenho-te na minha pele, uma cicatriz, que me vai lembrar sempre de ti até ao fim dos dias.
E agora que parece que queres encurtar os teus...
Faz-me uma outra cicatriz para provar que estás aqui...

Porque eu sou parvo e nunca te disse... mas quando fiquei sem veneno e cresci para ser criança outra vez... eu tenho tanto orgulho em ti...
Ainda te vou dizer isso outra vez não vou?