Sunday, March 14, 2010

the prestige

Estás à minha frente.

E enquanto entrelaças os teus dedos e levantas um bocadinho o canto da boca num sorriso que tem tanto de nervoso como de incómodo por te veres naquela situação estou à tua frente tentando procurar na pouca coragem que me resta um pouco de vontade para te encarar de frente e para me deixar apaixonar por esses olhos verdes da cor de um mar vivo marulhando de encontro ao cais.

Foi por tua causa que passeei junto ao rio naquela noite, e também foi por ti que entrei no quiosque velho que fica ao lado da ponte para pedir um maço de tabaco de menta. Comprei daqueles fininhos, daqueles que gostava que estivessem na ponta dos teus dedos igualmente esguios.Vinham num maço branco e comprido que guardei entre a carteira e o meu peito, guardei-os para depois, para o momento em que deixava por um momento a carapaça que me protege da banalidade dos outros, para os acender num momento de calma e segurança, num desses momentos que agora rareiam.

Acendi-o e ao contrário do que esperava não me soube papel velho e queimado, daquele que eu uso para marcar na minha pele uma promessa de que tudo vai ser diferente a partir daí, soube-me a menta e por um momento ia jurar que o sabor refrescante que me chegava à parte de trás da minha garganta me renovava como poucas coisas o tinham feito até ali.

E enquanto apertava o casaco porque já se levantava aquela humidade fria que aparece sempre no início da primavera fixava um ponto no chão e deixava que a minha imaginação te desenhasse de encontro à noite... era assim que me apetecia ver-te, ou por outras palavras, era assim que me apetecia ter-te, sozinha para mim, naquela noite, de encontro à solidão daquela noite.

É ainda muito cedo para ter pormenores que cheguem para fazer deter essa imagem mais do que escassos segundos, foges da minha mente do mesmo modo como entraste na minha vida, num acaso fugaz que aparece a quem já não espera outra coisa dali, e se irracionalmente te procuro, um pouco como quem persegue uma luz quando se está a afogar sem poder parar para pensar que essa luz é tão simplesmente a lua, desculpa, culpa o Inverno que se vai ou a inconstância das marés, mas não me culpes a mim porque intimamente saberás que para ti reservo um espaço especial.

E se me resta, ao final da noite, o travo amargo da raiva, seja porque saberei intimamente que nunca saberás, seja porque já não acredito em milagres, ou seja simplesmente porque amar-te é simplesmente olhar para o meu reflexo sem poder desviar o olhar, desculpar-me-ás também esta falha, porque sabes que sobrevives apenas como ideia, porque o acesso ao teu coração está trancado e eu engoli a chave e já não restam em mim as forças ou o talento para tentar escapar, como ilusionista, de um tanque fechado onde me afogo.

AP

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